Gastronomia Típica da Região

“De que se alimenta este povo? Que gastronomia peculiar lhe conforta as entranhas, à mistura com esse néctar acre e leve, a espumar na malga vidrada?"
Modesto 1983.

O espírito criativo das gentes de Ribeira de Pena traduz-se na variedade de sabores e aromas da sua gastronomia.
À mesa, embelezada por uma toalha de linho, é lançado o desafio de apreciar com prazer os produtos de uma região, onde tudo continua a nascer puro e natural. A experiência de provar as alheiras e as mouras de Cerva, acompanhando a tradicional broa de milho, bastaria para regalar o paladar mais exigente. Mas um rico e saboroso cardápio prolonga o desafio da escolha.

O Peixe

Os inúmeros rios e ribeiros de Ribeira de Pena oferecem abundante pesca para elaborar uma cozinha marinada de sabores naturais. Uma fritada de peixes do rio com arroz de vessadas malandro, feito em Maio, na altura das lavras, ou umas trutas do rio Beça, fritas com batata cozida, são manjares dos mais deliciosos.
Se a preferência recair sobre o tradicional bacalhau, recomendamo-lo em arroz seco ou malandro, assado com batatas a murro, ou ainda em capotes de bacalhau (postas de bacalhau passadas por farinha e fritas) a acompanhar deliciosas couves com feijão.

A Carne

Com méritos reconhecidos por toda a região, o cabrito e a vitela assados, ou cozinhados em fornos de lenha, deleitam os paladares mais exigentes. Estes pratos poderão ser acompanhados pelos milhos, escornados (com carne de vaca), esgravatados (com carne de galinha), esfuçados (com carne de porco), ricos (com todos os tipos de carne), ou por um excelente arroz de morcela, que não deve ficar malandro. O apreciador de pratos de caça poderá ainda saborear várias espécies venatórias, como o javali, a lebre ou a perdiz, que deverão ser preparadas segundo as antigas receitas.

A Doçaria

O leite-creme, as rabanadas de mel, os formigos, os bolos de farinha, as morcelas doces e o sarrabulho doce são a tradicional tentação.
O mel, apreciável pela sua qualidade e pureza, e as tradicionais compotas de Agunchos, são outros dos segredos da culinária típica Ribeirapenense.

O Vinho

A riqueza gastronómica destas terras deve-se também ao sabor característico do Vinho Verde da região, temperado por um intenso e delicioso sabor a frutos. Bem fresco, é excelente complemento para todas as ocasiões.

 

RECEITAS

Arroz de Bacalhau

Um outro arroz de bacalhau, menos difícil de conseguir com êxito porque, afinal, é mais domado na sua confecção, é um prato que já surgia muito na mesa dos patrões.
Numa panela baixa ou num tacho faz-se um refogado ligeiro com azeite de boa qualidade e cebola cortada às rodas. Esta não deve fritar, mas apenas 'entalar', como se costuma dizer, isto é, ficar como opaca na fritura, não exagerada, do azeite. Escolhe-se uma posta de bom bacalhau de peça, ou seja, sem estar demolhado, mas apenas lavado, e um ou mais vezes, consoante nos parece ou não demasiadamente salgado. Limpa-se de peles e espinhas e desfia-se muito bem desfeito, após o que se junta o refogado ligeiro já descrito. Depois de retomar a fritura é vez de juntar o arroz, lavado e cozido se for caso disso.
Deixa-se fritar um pouco, mexendo sempre e quando o arroz fica com o tal tom opaco por ser frito, junta-se o dobro da água bem quente, se possível a ferver. Diminui-se o calor, tapa-se e cerca de 15-20 minutos mais tarde, temos um soberbo arroz de bacalhau sequinho, bem apresentado e extremamente gostoso. Cuidado, porque não deve precisar de levar sal nem o ter a mais.

Couves com Feijão

Muito comum e apreciado no Inverno, as couves com feijão eram um prato misto, entre sopa e feijoada, cozinhado no pote de ferro sobre a lareira, e em cuja confecção entrava carne gorda do pescoço do porco, chouriço, morcela (à qual havia quem lhe chamasse chavianos), feijão, claro, e as gostosas couves destas serras e vales.
Na altura das vindimas, preferia-se o feijão galego, a que também se juntava carne de porco muito miudamente cortada e toucinho.
Havia também uma variante deste prato em que as couves com feijão eram servidas com capotes de bacalhau, que mais não eram do que postas de bacalhau envolto em pasta de farinha e trigo.

Bolos de Farinha

Muito usados para dar aos trabalhadores na refeição da tarde, a merenda (e que palavra bonita esta em vez de lanche!), os bolos de farinha faziam-se com farinha de milho que se deitava em chuva sobre a água fervente temperada com sal.
Cozia-se a farinha, mexendo com colher de pau e obtinha-se uma massa semelhante à que se obtém para preparar rissóis. Já fora do lume, havia quem lhe acrescentasse alguns ovos, mexendo sempre.
Depois, era fritar às colheradas, em azeite quente, que aquele era tempo que o único óleo que existia na nossa terras tinha nome próprio e se chamava Azeite.
Servia-se de acompanhamento a conduto salgado, ou comia-se assim como café ou vinho, conforme o sexo, gosto e casa.